10 - Espinhos na Consciência segundo Pascal.
1. O Espinho da Fragilidade Humana (O "Caniço Pensante").
Pascal revolucionou a antropologia filosófica ao descrever o homem como um ser de contradições: um "nada em relação ao infinito, um tudo em relação ao nada".
A Dualidade: O espinho é a consciência constante de nossa miséria e de nossa grandeza. Somos frágeis como um caniço, mas somos "caniços pensantes".
O Incômodo: Para Pascal, o ser humano vive em um estado de "tédio" e "inquietação". Esse desconforto (o espinho) é o que nos impede de encontrar repouso absoluto nas coisas materiais, forçando o Ente (o relativo) a buscar o Absoluto (o infinito).
2. O Espinho Físico e a Redenção pela Dor.
Pascal viveu a maior parte de sua vida adulta sob intenso sofrimento físico (enxaquecas crônicas e problemas gastrointestinais severos).
A Doença como Reparação: Da sua obra Oração para pedir a Deus o bom uso das doenças, deduz-se que a dor física, quando não pode ser curada, funciona como um regulador ou reparador da consciência.
Justiça Interior: O espinho na carne de Pascal servia para "desviar o olhar das vaidades do mundo" e focar na verdade interior. Seria a Consciência sendo refinada através da fricção do sofrimento.
3. O "Memorial" e o Espinho da Fé
Em 1654, Pascal teve uma experiência mística avassaladora (a "Noite de Fogo"). Ele escreveu um relato curto, o Memorial, e o costurou dentro do forro de seu casaco.
A Presença Invisível: Ele carregou esse texto — seu "espinho sagrado" — junto ao peito até a morte. Era o lembrete constante de que o Deus em que acreditava não é só " Impessoal", o "Deus dos filósofos e dos sábios", mas também aquele "Pessoal", "Deus de Abraão, Isaque e Jacó" e o Amor que também abraça os Simples e Puros de Coração (personificado em Jesus de Nazaré). A impessoalidade do Absoluto, que é uma "circunferência de raio infinito e centro em toda parte", mas que através da pessoalidade socorre e consola.
Aposta de Pascal: A existência desse Absoluto de "circunferência infinita". O espinho da dúvida é resolvido não só pela razão pura, mas também pelo "coração que tem razões que a própria razão desconhece".
4 - Espinhos na Consciência
Enquanto o Espinho de Pascal era um convite individual à transcendência e à humildade intelectual, os Espinhos das Nações, inclusive da Europa, são a manifestação coletiva desse mesmo princípio:
Regulação: O espinho de Pascal o impedia de se perder na soberba de ser o maior matemático, físico, filósofo e escritor de sua época, como surpreendente polimata que era.
Consciência: O espinho da Europa a impede de se perder na soberba de sua antiga hegemonia, lembrando-a de suas falhas éticas.
Justiça Natural: Em ambos os casos, o espinho não é um erro biológico ou histórico, mas um componente da Arquitetura da Realidade, em sua Justiça Natural, que garante que o Ente nunca se esqueça de sua dependência do Todo (de sua integração no Absoluto e de sua fragilidade e incompletude como relativo diante do Todo Absoluto).

Comentários
Postar um comentário