3 - Satyagraha aplicada no Conflito

1 - Satyagraha - Princípios para a Vitória no Conflito.

O conflito surge da disputa de interesses, quando os limites dos direitos não estão claros ou foram ultrapassados por uma das partes. Embora o conceito de direito, que se apoia na verdade e na justiça, seja abstrato e dependa do ponto de vista e do contexto, é nesse limite que se define o que é justo ou injusto.

O Satyagraha busca uma nova relação entre as partes oponentes, que vai além da disputa, levando-as a um estado onde os atritos sejam reduzidos, o que gera uma energia extra que beneficia a todos. Seu objetivo é resolver a injustiça, seja contra si mesmo ou contra outros, mas seu ideal é alcançar um estado de coordenação e minimização do conflito, especialmente quando o oponente se mostra receptivo a mudar de posicionamento.

Se a colaboração não for possível, o Satyagraha ainda oferece um caminho: o de buscar formas de minimizar os efeitos do conflito ou até mesmo de se afastar dos seus agentes, libertando-se da subjugação e da opressão.

O princípio do Satyagraha propõe que se esclareça a verdade, que se resista com as ações necessárias e que se suporte o sofrimento sem ódio. Na sua forma mais eficaz, essa atitude desarma o agressor, que é levado a reconhecer a injustiça de suas ações e a mudar de comportamento. O resultado é uma nova harmonia, um estado de coexistência menos conflituoso.

Não é um princípio ilusório e utópico, mas efetivo e viável, de aplicação prática em qualquer circunstância de conflito.

Este princípio foi a base da luta de Mahatma Gandhi (1869–1948) pela independência da Índia contra o domínio britânico no século XX, embora suas raízes tenham sido plantadas no XIX. Inspirou muitos outros movimentos por direitos civis e liberdade em todo o mundo, incluindo o movimento de Martin Luther King Jr. (1929 – 1968) nos Estados Unidos e a luta contra o apartheid na África do Sul (segregação dos negros de 1948 a 1994).

2 - Liev Tostói: precursor moderno do pacifismo na resistência à injustiça.

Liev Tolstói (1828–1910), um dos maiores escritores russos, é considerado um dos precursores modernos do pacifismo. Em suas obras, como O Reino de Deus Está em Vós (1894), ele defendia uma filosofia de não-resistência ao mal pela violência, que ele considerava a verdadeira essência do cristianismo.

Essa filosofia teve uma influência fundamental em Mahatma Gandhi, que a descobriu na África do Sul e a integrou na sua própria doutrina de Satyagraha. A correspondência entre os dois homens, trocando ideias sobre a não-violência, é vista hoje como um diálogo crucial na história do pacifismo. A visão de Tolstói de um pacifismo ativo, baseado em princípios espirituais e morais, lançou as bases para os movimentos de desobediência civil que viriam a seguir, tornando-o uma figura central na evolução da resistência pacífica à injustiça.

3 - Albert Schweitzer: O ativista pacífico contra a injustiça.

Albert Schweitzer (1875-1965) foi uma figura multifacetada — médico, teólogo, filósofo e músico — que dedicou sua vida ao serviço humanitário na África. Ele é mais conhecido por sua filosofia de "reverência pela vida", que defendia o respeito incondicional a toda e qualquer forma de existência.

Schweitzer não via essa filosofia apenas como uma teoria; ele a colocou em prática ao dedicar grande parte de sua vida ao trabalho como médico missionário em Lambaréné, no Gabão. Seu serviço incansável e sua defesa da paz lhe renderam o Prêmio Nobel da Paz de 1952. A vida de Schweitzer demonstra que o ativismo pacífico contra a injustiça pode se manifestar não apenas em protestos, mas também na compaixão e no serviço dedicado aos mais vulneráveis.

4 - Subprincípios de Satyagraha

4.1) Ahimsa (Não-violência): 

Procurar não causar dano a nenhum ser e responder à violência com amor e compaixão. No entanto, quando for imprescindível agir para que a injustiça não prevaleça, atuar sem ódio, buscando, tanto quanto possível, minimizar o conflito para uma melhor coordenação de ações.

4.2) Satya (Verdade)

Não compactuar com a mentira, e também não mentir para benefício próprio. Expor a falsidade e os erros, mas também reconhecer e corrigir os seus, sempre colocando o princípio da verdade acima dos interesses.

4.3) Tapasya (Resignação diante do sofrimento)

Não é conformação, mas disposição de aceitar o sofrimento pessoal em vez de infligir por ódio sofrimento ao oponente. É importante que esse sofrimento não seja desejado ou auto-infligido. O entendimento é que esse sofrimento, quando aceito voluntariamente, ensina e liberta.

4.4) Coragem e Força para resistir

Energia e disciplina ética para resistir à injustiça sem ódio ou retaliação, mesmo diante da violência. O foco é preservar a verdade, o direito e o bem-coletivo, protegendo também os mais fracos.

4.5) Não cooperação e desobediência

Recusa em cooperar com sistemas, leis, costumes, pontos de vista, estado de relações ou práticas injustas ou que desrespeitem os direitos e liberdades individuais. É uma desobediência que, embora seja pacífica, é ativa e determinada. Busca esclarecer a verdade, expondo a ilegitimidade dos pressupostos, métodos e ações da maldade, veiculada pelo oponente no conflito.

4.6) Ausência de Ódio no processo de conflito

A Satyagraha propõe que não se deve nutrir ódio pelo oponente. A intenção é convertê-lo por meio da persuasão moral, do esclarecimento da verdade, da empatia e da compreensão, e não pela força ou humilhação. Embora essa intenção possa não ser sempre plenamente alcançada, ela continua sendo valiosa em seus resultados, ainda que apenas interiores.

4.7) Busca de Reparação 

Procurar a reparação da injustiça sofrida, mas manter sempre a disposição para a negociação. O objetivo não é a vingança, mas sobretudo a reparação da injustiça. A reparação não deve ser dispensada, pois ela é distinta do perdão. A injustiça precisa ser corrigida. Essa decisão não deve depender de você: a reparação é sempre necessária de algum modo. Deixe que ela se desenvolva e a aceite com gratidão. 

4.8) Perdão no desfecho (Saneamento do Ódio)

O perdão é o saneamento do ódio e da mágoa pessoal, que impede a cura interior. Não significa esquecer ou compactuar com a injustiça, mas sim liberar-se da prisão da dor e do ressentimento. O perdão é uma escolha que beneficia, sobretudo, quem o pratica, libertando-o de sua própria dor.

4.9) Abertura para a Reconciliação

A reconciliação é o objetivo final do Satyagraha. É a restauração de um novo estado de relacionamento entre as partes, baseado no respeito mútuo, na verdade e na justiça, permitindo a construção de um futuro sem o peso do conflito anterior. Nem sempre a reconciliação é possível, pois muitas vezes a convivência com o oponente não pode deixar de ser tóxica e prejudicial, mas a disposição de abertura para a reconciliação é um estado interno libertador. 

5 - Exemplos Práticos de Aplicação de Satyagraha.

  • 5.1) Filme Gandhi (1982).

O filme "Gandhi" (1982), dirigido por Richard Attenborough, é uma biografia épica que retrata a vida de Mahatma Gandhi, desde o seu momento de transformação na África do Sul até seu assassinato na Índia.

O filme é famoso por sua escala grandiosa, incluindo a icônica cena do funeral de Gandhi, que contou com um recorde de 300 mil figurantes. É estrelado por Ben Kingsley no papel-título, que ganhou o Oscar de Melhor Ator, entre os oito Oscars que o filme recebeu, incluindo o de Melhor Filme.

A obra é reconhecida por apresentar a filosofia de Satyagraha e a luta não-violenta de Gandhi pela independência da Índia de forma inspiradora e detalhada.

Disponível no Youtube no link: Filme Gandhi (1982)

  • 5.4) Filme Selma: Uma Luta pela Igualdade (2014).

O filme "Selma: Uma Luta pela Igualdade" (2014), dirigido por Ava DuVernay, é um drama histórico que retrata um dos momentos mais importantes do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos.

A trama se concentra nas marchas pacíficas lideradas por Martin Luther King Jr. em 1965, da cidade de Selma até Montgomery, no Alabama. O objetivo era lutar pelo direito de voto da população negra, que sofria com a segregação racial e a violência. O filme mostra as tensões políticas, os confrontos violentos com a polícia e a determinação do movimento, culminando na aprovação da Lei do Direito ao Voto.

Disponível no Prime Video para alugar ou comprar no seguinte link:  Selma: Uma Luta pela Igualdade (2014)

6 - Interpretação Equivocada da Resignação e do Perdão.

Não é certo ceder à injustiça. A resistência à injustiça não é apenas um direito, mas uma obrigação. Diante dela, pode-se aplicar a Resistência Pacífica, uma prática desenvolvida por Gandhi a partir do princípio do Satyagraha.

Muitos confundem a subserviência à injustiça com a virtude cristã ou religiosa em geral, sob o argumento de "entregar a justiça a Deus". No entanto, o perdão não significa que não devemos resistir à injustiça, buscando ativamente a reparação.

O que se entende, por exemplo, do ensinamento de Jesus de Nazaré é que não devemos devolver o mal com o mal, ou o ódio com o ódio. 

Diante do conflito e da maldade, a postura correta é aceitar as circunstâncias como oportunidades de aprendizado e de fortalecimento interior, seja qual for a causa. Isso exige, no entanto, uma resistência pacífica, pois é uma obrigação de consciência não compactuar com a injustiça.

O caminho é libertar-se, fechar o ciclo e se afastar dos focos de atrito, buscando cultivar a paz e a harmonia internas. O objetivo é trabalhar para melhorar o contexto de sua própria vida e seguir em frente. O sofrimento, nesse sentido, torna-se um meio de aprendizado e liberta a consciência.

7 - Epílogo.

Diante do conflito, do sofrimento e da maldade,

aceita, resiste, desapega, afaste-se, fortaleça sua paz e harmonia interior, trabalhe e siga em frente.

Se o conflito no meio externo aumenta, o sofrimento vem, a maldade nos ataca, aceita os ensinamentos e o aprendizado que essas circunstâncias trazem,

seja por efeitos de causalidade de nossas próprias escolhas e atos, ou mesmo por casualidade da rede de parâmetros indeterminados do contexto,

faça resistência pacífica, pois muitas vezes é necessário, senão uma obrigação de consciência, resistir à injustiça.

Desapega, feche o ciclo, e afaste-se quanto possível dos focos de atrito e sofrimento, volte-se para o seu interior, buscando cultivar a paz e a harmonia, trabalhe para melhorar o contexto de sua vida, siga em frente.

Se o seu sofrimento derivou da causalidade, você fez uma parte da sua reparação pessoal necessária e se tornou mais livre. Se derivou da casualidade, chegou como uma oportunidade de aprendizado e elevação de consciência, para a sua libertação.

Notas

1) Gandhi: Mahatma Gandhi (1869-1948) foi um líder político e espiritual indiano que se tornou uma das figuras mais importantes da história. Ele liderou o movimento pela independência da Índia do domínio britânico, utilizando uma filosofia de desobediência civil e resistência pacífica chamada Satyagraha (força da verdade).

Sua luta foi baseada em princípios como a não-violência, a verdade e o autogoverno. A influência de Gandhi se estendeu muito além da Índia, inspirando movimentos por direitos civis e liberdade em todo o mundo, incluindo a luta de Martin Luther King Jr. nos Estados Unidos e a de Nelson Mandela na África do Sul.

2) Martin Luther King: Martin Luther King Jr. (1929-1968) foi um ativista e líder do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Inspirado pela filosofia de Satyagraha de Mahatma Gandhi, ele defendeu a resistência não-violenta para combater a segregação racial e a discriminação.

Como presidente da Conferência da Liderança Cristã do Sul, King liderou a Marcha sobre Washington em 1963, onde proferiu o seu icônico discurso "Eu Tenho um Sonho" ("I Have a Dream"). Sua luta resultou em importantes avanços legislativos, como a Lei dos Direitos Civis de 1964 e a Lei do Direito ao Voto de 1965. Em 1964, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

3) Tolstói: Liev Tolstói (1828–1910), um dos maiores escritores russos, é considerado um precursor moderno do pacifismo. Em sua obra O Reino de Deus Está em Vós, ele defendeu a não-resistência ao mal pela violência. Sua filosofia influenciou profundamente Mahatma Gandhi, que a integrou em sua doutrina de Satyagraha, estabelecendo um diálogo histórico sobre a desobediência civil e a resistência pacífica.

4) Albert Schweitzer: Albert Schweitzer (1875-1965) foi um médico, filósofo e músico que dedicou sua vida ao trabalho humanitário na África. Ele é mais conhecido por sua filosofia de "reverência pela vida", que defendia o respeito incondicional a toda forma de existência, incluindo animais, vegetais e demais seres não sencientes. Sua vida e serviço como médico em Lambaréné, no Gabão, lhe renderam o Prêmio Nobel da Paz de 1952, demonstrando que a resistência à injustiça também pode se manifestar na compaixão e no serviço à humanidade, aos animais e à natureza.

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